Mídia : O Globo
Data : 26/07/2010
Déficit em conta corrente triplica no primeiro semestre, a US$ 23,762 bi
BRASÍLIA (Reuters) – Remessas de lucros e dividendos recordes aliadas a gastos de brasileiros com viagens ao exterior em volumes nunca vistos aceleraram a deterioração das contas externas em junho e no primeiro semestre do ano para os piores resultados desde 1947.
O déficit em conta corrente brasileiro (resultado da balança comercial exportações menos importações e de serviços financeiros como pagamento de juros da dívida externa) triplicou no primeiro semestre deste ano em relação aos seis primeiros meses de 2009. O saldo negativo acumulado foi de US$ 23,762 bilhões, ante US$ 7,177 bilhões de janeiro de junho de 2009.
Somente em junho, o déficit em transações correntes ficou em US$ 5,180 bilhões, o pior resultado já registrado para o mês desde o início da série histórica, informou o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes.
Um mês antes o déficit havia sido de US$ 1,988 bilhão (número revisado). Em junho do ano passado, o saldo negativo foi bem menor, de US$ 575 milhões. Os dados são do Banco Central (BC).
Analistas consultados pela Reuters esperavam déficit de US$ 3,45 bilhões em junho, segundo a mediana das projeções.
Lopes atribuiu a deterioração das contas externas às remessas de lucros e dividendos das multinacionais, na esteira da forte recuperação da economia brasileira, além de retornos ainda para cobertura de estragos da crise mundial em alguns setores, como o automotivo.
De forma que a saída de lucros e dividendos foi recorde para meses de junho, com US$ 4,156 bilhões. Também foi o maior valor registrado para o primeiro semestre, acumulando remessas de US$ 14,967 bilhões. E em julho, até hoje, a remessa foi de US$ 1,672 bilhão nessa conta.
O BC prevê ligeira melhora da conta corrente externa em julho, que deve fechar deficitária em US$ 3,7 bilhões.
Gastos recordes no exterior
A nova “mania cultural” do brasileiro de viajar ao exterior, segundo Lopes, deixou em junho a maior despesa para o mês, de US$ 1,325 bilhão, com resultado líquido deficitário em US$ 909 milhões, outro recorde. Para o primeiro semestre, os gastos brutos também foram recordes em US$ 7,050 bilhões, assim como o saldo líquido deficitário em US$ 4,1 bilhões foi o maior.
Os investimentos estrangeiros diretos no país somaram US$ 708 milhões no mês passado, ante US$ 1,431 bilhão em junho de 2009. A previsão de analistas era de US$ 1,5 bilhão.
O chefe do departamento do BC afirmou que o investimento estrangeiro direto surpreendeu para baixo por conta de uma operação de retorno de destaque no setor imobiliário.
Os números abrangem dados da balança comercial, da conta de serviços e das transferências unilaterais do país. A conta de transações correntes mensura o desempenho das compras e vendas de bens e serviços de um país com o exterior.
A conta corrente é formada por três itens: a balança comercial resultante de exportações e importações; a conta de serviços e rendas, que une fluxos de entradas nas diversas modalidades de empréstimos externos e de saídas para o pagamento de juros, remessas de lucros e de serviços em geral (como viagens e transportes); e as transferências unilaterais correntes, que são recursos enviados por brasileiros que moram no exterior.
Nosso Comentário:
Déficit na Conta Corrente do Brasil Triplica e Assusta
É como se os turistas estivessem pecando ao viajarem para fora do país. Já vimos esse filme há algumas décadas. Só falta agora baixarem um imposto compulsório e pesadas quotas sobre viagens ao estrangeiro.
As remessas de lucros do setor automotivo acontecem porque 100% das montadoras brasileiras são estrangeiras. O governo taxa os veículos de modo tão exorbitante que não se importa com a nacionalidade delas. E não se importa se os modelos de veículos produzidos aqui são defasados (as carroças de Collor). Na China, pelo menos 50% do capital teria que estar nas mãos de chineses.
Mas o que incomoda mesmo nessa situação é ver proposta de que a única solução para reduzir esse crescente déficit externo é aumentar a poupança do governo. Claro que ele está se perdendo em gatos em ano eleitoral, mas o problema é muito maior que esse.
Enquanto a China tem um câmbio atrelado ao Dólar e quase 40 % desvalorizado, o Real encontra-se quase 40% sobrevalorizado. As latas taxas de juros pagas pelo Brasil não ajudam a melhorar a situação, apenas a agravam. O problema é o câmbio e as vantagens armadas pela China.
Como exemplo, o setor têxtil e de confecções vem sofrendo muito com isso. Sua balança comercial encerrou o primeiro semestre deste ano com um déficit de US$ 1,578 bilhão. O rombo no saldo comercial é 62,4% maior que o registrado em igual período de 2009, quando o déficit atingiu US$ 971,6 milhões.
O déficit comercial do setor deverá chegar a US$ 3 bilhões em 2010, ano que apresentará o maior resultado negativo, que até 2004 apresentava anualmente superávit.
Tem havido um forte aumento das importações predatórias da China. No primeiro semestre de 2009, as compras externas de itens de vestuário vindos apenas da China aumentaram 18,35%. Só em junho, as importações da China em valor aumentaram 85,17% em relação ao mesmo mês de 2009, enquanto as importações totais cresceram 76,94%.
Das importações brasileiras de vestuário do primeiro semestre, 63% foram provenientes da China e apresentaram preço médio de US$ 12,65 por quilo. O preço do produto chinês é 39% mais baixo do que a média dos preços dos mesmos itens fabricados em outros países.
Em contrapartida, as exportações brasileiras de vestuário, no primeiro semestre de 2010, tiveram uma média de preço de US$ 39,44 por quilo. Isto é mais que o triplo dos preços chineses.
Afinal, já que exportar não é interessante para este governo, quem será que está errado? O Brasil não tem que seguir a política de câmbio flutuante ao pé da letra só para aparecer bonito na foto. Tem que desvalorizar o Real e voltar a vender para o mundo.

Roberto Silva
ECONOMIA BR
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Retomamos os tempos de consenso neoliberal, onde a economia nacional vira refém do equilíbrio das contas externas.
Poucos são os que param para pensar que se diminuir o investimento externo também teremos que importar menos. No final das contas, acaba surgindo um novo equilíbrio na balança de pagamentos.
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