Populações de Índia e China Dependerão dos Alimentos do Brasil

Mídia : Drag Team

Data : 26/01/2011

Elite indiana em crise

Sanjeev Sanyal

Para um país com 1,2 mil milhões de pessoas, a Índia é governada por uma elite surpreendentemente pequena, que tem poder sobre tudo, desde o Governo às grandes empresas, e também aos órgãos desportivos.

Mas um conjunto de escândalos, alguns deles envolvendo milhões de dólares, fez com que a sua percepção saísse prejudicada perante o olhar dos indianos.

Quase todos aqueles em posições de poder na Índia, incluindo os jornalistas conhecidos da imprensa e da televisão, são vistos com suspeição. Isto está a acontecer ao mesmo tempo que o crescimento económico conduz uma população jovem e em ascensão social para a classe média urbana.

Esta nova classe média já não está limitada pelos sistemas de clientelismo das aldeias, mas também não desfruta de uma relação confortável que ligue a antiga classe média à elite. Pode esta crise da elite criar um massacre de Tiananmen indiano?

À excepção dos regimes totalitários, a elite de um país depende do grau de aceitação popular, o que na maioria das vezes advém da crença de ela é bastante “justa” nos seus negócios. Mas, tendo em conta a recente série de escândalos, a classe média indiana já não acredita nisso.

Claro que as dúvidas sobre a elite dirigente não são exclusivas da Índia. Quase todos os países que estão a passar de um equilíbrio pré-industrial, baseado no clientelismo, para um baseado em instituições modernas e no respeito pela lei têm enfrentado estas crises de legitimidade.

Até ao século XIX, por exemplo, os políticos britânicos eram extremamente corruptos. A velha aristocracia dominava não apenas a Câmara dos Lordes como também usava a sua influência para conseguir que parentes, amigos e apoiantes das suas famílias fossem eleitos para a Câmara dos Comuns.

Isto através da exploração de uma fraqueza institucional importante – a existência de “burgos podres” que podiam ser comprados e vendidos.

Diz-se que o duque de Newcastle controlou sozinho sete destes burgos, cada um com dois representantes. Enquanto isso, as cidades industriais grandes e populosas, como Birmingham e Manchester, eram pouco representadas.

Em 1819, juntou-se uma multidão de 60 mil pessoas em Manchester que exigia uma reforma. Na altura, estas foram agredidas pela cavalaria. Quinze pessoas foram mortas e muitas outras ficaram feridas naquele que é relembrado como o massacre de Peterloo.

Dada a então memória recente da violenta revolução francesa, a elite britânica concordou, de forma relutante, em proceder a reformas democráticas. Por fim, a Lei da Reforma de 1832 aboliu os “burgos podres” e estendeu o direito de voto à nova classe média (a classe trabalhadora e as mulheres teriam ainda de esperar).

Da mesma maneira, os Estados Unidos atravessaram um período de industrialização dirigido por barões capitalistas que actuavam como senhores feudais nos anos 70 e 80 do século XIX.

A ganância e a corrupção da altura foi satirizada em 1873 por Mark Twain e Charles Dudley Warner no seu livro A Idade De Ouro (The Gilded Age: A Tale of Today). O período terminou com a depressão de 1893-1896, e foi seguido por grandes reformas políticas da Era Progressista.

Para a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, a transição na natureza da elite governativa foi relativamente calma. Mas há muitos exemplos onde essa mudança foi repentina e violenta – as revoluções francesa e russa, por exemplo.

Na Alemanha, a velha elite da Prússia geriu a industrialização de forma bem sucedida no fim do século XIX, mas foi desacreditada pela derrota na Primeira Guerra Mundial. O nazismo preencheu o vazio existente e um novo equilíbrio viria a ser estabelecido apenas depois da Segunda Grande Guerra.

Alterações do mesmo género registaram-se na Ásia. O Japão sentiu duas mudanças: a restauração Meiji, de 1868, e o período após o segundo conflito internacional.

A Coreia do Sul foi governada por generais até os protestos generalizados de estudantes levarem à transição democrática em 1987. (Muitos dos empresários de topo do país enfrentaram a acusação nos anos seguintes). A Indonésia experienciou esta transição mais recentemente, em 1998.

Quando a China sentiu este momento durante os protestos na Praça de Tiananmen, em 1989, o Estado comunista reprimiu os estudantes com mão de ferro, embora tenha mantido desde aí um foco único no crescimento económico.

A corrupção continua a ser um grande problema, mas as autoridades têm o cuidado de punir os piores excessos com grande visibilidade. Ainda assim, como foi demonstrado pela controvérsia em torno do Prémio Nobel da Paz, o governo mantém-se nervoso em relação a qualquer dissidente que desafia a legitimidade da elite governante.

Mesmo ajustada ao poder de compra, a classe média indiana de hoje provavelmente não totaliza mais de 70 milhões de pessoas (muito mais pequena do que geralmente se pensa).

Mas, na próxima década, a classe média estabelecida será inundada por novos elementos que sairão das favelas, das pequenas cidades e das aldeias do país.

É possível vê-los em todo o lado – a aprender inglês em centros de formação, a trabalhar de forma anónima nos novos centros comerciais e em call centers, ou até a surpreender pela notoriedade enquanto estrelas do desporto.

Nunca antes a Índia tinha sentido tanta mobilidade social. Até agora, este novo grupo tem estava ocupado a escalar nos seus rendimentos para perder tempo a expressar o seu ressentimento face os excessos da elite, mas começa-se a sentir uma crescente raiva entre os seus membros.

É impossível prever quando irá acontecer a mudança e sob que forma. Dadas as tradições democráticas da Índia, é provável que a transição seja pacífica. Uma das possibilidades é que venha a ter lugar província por província – sendo o estado anteriormente ingovernável de Bihar um excelente exemplo.

Mas também podemos verificar uma reviravolta imprevista, com um novo líder político ou um novo movimento a capturar, de repente, a imaginação popular e a alterar, assim, o antigo regime. Como sabemos da Alemanha nazi e de outros casos, tais movimentos nem sempre levam a um final feliz.

Talvez a actual elite indiana aprenda com a história, se purifique e, então, se abra a um novo talento. Têm sido iniciadas muitas investigações sobre os escândalos de corrupção do momento.

Ao longo deste ano, os indianos vão descobrir se os esforços são sérios e se vão conduzir a uma reforma – ou apenas a uma crise mais profunda.

Sanjeev Sanyal é o autor de The Indian Renaissance: India’s Rise after a Thousand Years of Decline.

Nosso Comentário:

Populações de Índia e China Dependerão dos Alimentos do Brasil

Esta excelente matéria é uma aula de história e nos faz pensar sobre os fortes desafios que o veloz crescimento econômico está apresentando aos governantes da Índia, China e por que não dizer também, Brasil?

Algo entre dezenas e centenas de milhões de pessoas estão ascendendo econômica e socialmente nesses países a um ritmo simplesmente inusitado frente a séculos de história.

Aqui no Brasil, todos estão cientes de que o Nordeste vive uma revolução e todo o país vem conhecendo a sua nova classe média.

Talvez em até dez anos Índia e China tenham trazido para as sua grandes cidades uma população que fará a grande diferença para os sistemas políticos então vigentes nessa nações.

Esses milhões ou até bilhões de emigrantes do campo não aceitarão mais as ordens de cima como seus antecedentes aceitavam por tanto tempo. Estarão essas sociedades preparadas para essa mudança tão abrupta e bem-vindas?

Mas o problema não será somente econômico ou político, será pior: como irão Índia e China atender aos desejos de consumo e alimentares, muito além das baixas necessidades de hoje, dessa massa gigantesca vivendo em cidades com novos e caros hábitos?

Hoje, os brasileiros pensam que o Brasil depende da China. Não, não é nada disso. O Brasil será fundamental na grande crise alimentar que chegará ao mundo em poucos anos com toda essa revolução de massa na Índia e na China, sem mencionarmos as catástrofes climáticas, que só fazem crescer a cada ano.

Portanto, toda essa movimentação mostra de forma cristalina que a China é que depende do Brasil e de forma inevitável.

Populações inteiras de Índia e China em breve dependerão dos alimentos do Brasil, que ainda dispõe de gigantescas fronteiras agrícolas, sem iguais no mundo.

Nossa presidente Dilma Roussef está bem ciente desses fatos e as negociações com os chineses ainda em 2011 deverão ser duríssimas, finalmente.

Seria bom que estivesse ainda sobre a mesa o futuro do planeta, com temas árduos mas fundamentais, como o respeito mútuo pelo meio-ambiente e a contenção urgente da  explosão populacional nesses países irmãos.

Roberto Silva

ECONOMIA BR

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