A Economia dos EUA Tornou-se o Grande Problema do Mundo Atual

Mídia : Valor Econômico

Data : 23/07/2010

Um alerta soturno de Ben Bernanke

José Roberto Campos

O presidente do Federal Reserve Bank, Ben Bernanke, deu um tom soturno a seu depoimento no Congresso americano esta semana e avisou que as perspectivas para a economia americana raras vezes foram tão incertas.

Alan Greenspan, o ex-poderoso chefão do Fed, agora um comum mortal, apontou que a economia “bateu em um muro invisível”. A recuperação perdeu força nos EUA e um pouco também no mundo.

O fim dos enormes estímulos dados para deter a crise financeira não foi sucedido por um movimento já autoimpelido de crescimento, mas por um recuo, que pode ser temporário ou se transformar em algo pior – deflação.

A hipótese consta da ata da última reunião do Fed e é aflitiva. O Fed e outros bancos centrais estão perto do grau zero da política monetária, aquele em que novos estímulos têm poucas chances de dar certo e os juros não podem mais ser reduzidos.

O Fed encerrou em março seus programas de sustentação do mercado, para ver em seguida a economia desacelerar e o mercado imobiliário desabar.

Para quem ainda se lembra dos empréstimos subprime, em que a encrenca começou: a inadimplência atual é de 40% no crédito a taxas flutuantes e de 20% no de taxas fixas.

Além disso, a criação de emprego revelou-se insuficiente para reduzir rapidamente a taxa de desemprego, de 9,5%. Sem a melhoria no emprego, a renda não avança, o consumo patina e a economia não sai do lugar.

Os bancos ainda guardam em seus cofres grande quantidade de títulos problemáticos e continuam com perdas significativas. A oferta de crédito recuou nos últimos dois meses, com menos US$ 24 bilhões à disposição dos tomadores.

Em maio, a contração foi de 4,2%. E mais do que se lançar em novas dívidas, os americanos estão pagando as velhas. A dívida total das famílias no primeiro trimestre de 2010 foi a menor em seis anos, algo equivalente a 12,5% da renda disponível.

A poupança total (famílias, empresas e governo) é hoje negativa em 2,5% do Produto Interno Bruto e sua composição conta um pouco do passo incerto da recuperação americana.

O governo tem poupança negativa de 9% do PIB (o tamanho de seu déficit), enquanto a poupança privada é positiva em 7% do PIB, a maior em dez anos. O investimento em capital fixo é um dos pontos positivos da história, porque cresceu 11,5% no primeiro trimestre. Mas na construção comercial os investimentos caíram 27,5%.

A inflação, medida pela variação dos gastos pessoais de consumo, foi de 0,75% ao ano até maio, ante o dobro disso em 2009. Os preços dos bens que compõem o núcleo do índice diminuíram 1,5% no período.

Com os preços em declínio e o alto desemprego, vários membros do Comitê de Política Monetária do Fed apontaram a existência de pressões deflacionárias. Outros, o risco de deflação.

Como os rumos não estão claros, Bernanke decidiu proclamar que o BC americano está pronto para dar novos estímulos à economia se ela necessitar disso, sem mencionar a terrível ameaça de uma queda constante dos preços.

O roteiro para evitar a deflação é mais complicado e nele o arsenal disponível tem menor poder de fogo. Há um déficit público gigantesco e pouca esperança de aumento das receitas.

A arrecadação federal americana caiu 16,5% no ano fiscal de 2009 (setembro a setembro) e a carga tributária federal atingiu no ano passado 14,5% do PIB, a menor em 60 anos.

Até junho, decorridos nove meses do ano fiscal de 2010, as receitas cresceram apenas 0,5%. A dívida bruta americana atingirá no atual ano fiscal 65% do PIB, a maior em 50 anos (a do Brasil, em percentual, é a mesma).

O Fed, com os estímulos, inflou seus ativos para US$ 2,34 trilhões. Novos anabolizantes teriam efeitos provavelmente residuais. O BC cortaria a zero a remuneração das reservas bancárias, para estimular os empréstimos, e compraria mais títulos de hipotecas e outros, para reduzir a nada os juros ao consumo.

Nesta altura, a remuneração dos investidores, que já é pequena – 3% em um título do Tesouro de dez anos – encolheria ainda mais. Investidores e consumidores poderiam preferir dinheiro nas mãos, porque as aplicações pouco renderiam e os preços estariam em queda.

Para evitar a deflação, restaria, como disse Bernanke em seus estudos sobre a Grande Depressão, a opção derradeira: jogar dinheiro de helicóptero e esperar que alguma inflação aparecesse.

O cenário da deflação é ainda o menos provável, mas que tenha sido ventilado agora, pelo mais importante BC do mundo, é urgentemente profilático: alertar para o que está em jogo.

Os governos europeus, e parte do Congresso e opinião pública americanos, tendem a caminhar na rota contrária, a do aperto fiscal, e podem precipitar o indesejável.

O presidente do Banco Central Europeu, Jean Claude Trichet, em artigo ontem no “Financial Times”, soltou um brado de guerra diferente do de Bernanke: aumento de impostos e corte de gastos públicos deveriam ser feitos imediatamente nos países desenvolvidos.

Números positivos de encomendas e produção na zona do euro, especialmente na Alemanha, levaram Trichet a uma miragem resultante de um desejo – para ele, é melhor resolver o problema dos déficits o mais rápido possível antes que o crescimento deslanche e a inflação venha correndo.

O presidente do BCE não tem sido reconhecido exatamente como um homem de visão. Na verdade, perdeu as principais batalhas na quais se envolveu recentemente. Na última delas, teve de fazer o BCE engolir contra a sua vontade títulos soberanos de países sob ataque dos mercados, como a Grécia.

Trichet disse que os estímulos dados em 2009, sob pressão do Fundo Monetário Internacional e EUA, foram um erro. Diante da falsa visão de uma recuperação pujante da economia europeia a curto prazo, é bem possível que daqui a pouco o BCE saia por aí aumentando os juros.

Nosso Comentário:

A Economia dos EUA Tornou-se o Grande Problema do Mundo Atual

Há três anos, o capitalismo mundial vive um novo período de crise extensa, que afetou principalmente os países mais desenvolvidos.

O epicentro dessa crise ainda está nos EUA, os desequilíbrios de sua economia se irradiam para todo o mundo e provocam uma instabilidade geral.

É ali que o mercado imobiliário caminha com mais força para desabar. Desde o problema com os empréstimos subprime, a inadimplência já atinge a 40% no crédito a taxas flutuantes e de 20% no de taxas fixas.

Como é dito no vídeo abaixo, o governo jogou uma corda para os bancos, mas os compradores de imóveis ainda estão na neve. Somente 16% daqueles que pediram modificação de seus contratos de empréstimo conseguiram ser aprovados. Esse percentual é insignificante para a solução do problema.

Os bancos ainda guardam em seus cofres grande quantidade de títulos problemáticos e continuam carregando mais perdas. A oferta de crédito vem recuando, e nos últimos dois meses chegou-se a menos US$ 24 bilhões à disposição dos tomadores.

Com os preços em declínio e o alto desemprego, vários membros do Comitê de Política Monetária do Fed apontaram a existência de pressões deflacionárias. Esse problema tende a se agravar e pode chegar a um terrível ponto sem volta.

A dívida bruta americana atingirá no atual ano fiscal 65% do PIB, a maior em 50 anos. Há quem já esteja prevendo que em muito breve ela passará de 100%. Uma escalada nas ameaças de guerra dos EUA contra Coreia do Norte, Irã e até Venezuela pode ser o grande estopim que falta para tal.

E quanto aos chineses, qual  será sua estratégia com aqueles mais de US$ 2 trilhões em títulos da dívida americana? Será verdade que seus militares estariam no comando dessas decisões, preparando a grande vingança? Os russos estariam mesmo por trás de tudo?

Housing bubble explodes in foreclosures – 23/07/2010:

Art Laffer: Alan Greenspan Is Too Old To Care About The Future – 21/07/2010:

Chinas Economic Revenge? – 12/02/2010:

Economic warfare erupts between U.S., Russia and China – 30/01/2010:

http://www.youtube.com/watch?v=T5gu1h3NXJw

Roberto Silva

ECONOMIA BR

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