Algumas Perguntas aos Candidatos Sobre a Política Externa do Brasil

Mídia : Estado de São Paulo

Data : 09/08/2010

O emergente pede passagem

Como pode o Brasil, num sistema internacional em transição, aumentar sua influência?

Gabriel Manzano

Trata-se de uma feliz coincidência e o melhor que os candidatos à Presidência podem fazer é aproveitá-la. O Brasil ganha importância e sonha com mais espaço na política mundial no exato momento em que uma crise financeira abala o sistema e obriga as grandes potências a reavaliar as regras do jogo e aceitar novos sócios.

A multipolaridade, palavra da moda entre diplomatas e historiadores, abre as portas do clube para novos sócios – os países emergentes.

Uma tarefa a mais, portanto, para os presidenciáveis: entender de política externa. O tema entrou no caldeirão das prioridades nacionais e está obrigando cada um deles a esclarecer aos 135 milhões de eleitores, até outubro, duas questões: de que modo farão o País tirar vantagem desse novo cenário? E por quais caminhos pretendem definir esse novo lugar do Brasil no mundo?

Essas perguntas não faziam o menor sentido nos tempos do chamado mundo bipolar, o da Guerra Fria. Aquele era um mundo no qual não cabia mais ninguém além de Estados Unidos e União Soviética, com seus mísseis, seus espiões e o som de seus tambores de guerra.

O nome do jogo era “mundo livre versus cortina de ferro” e a diplomacia dos tristes trópicos, tão desimportante, dormia sossegada durante os comícios eleitorais.

Isso passou. Sepultado com o comunismo, em 1991, o mundo bipolar foi trocado pelo domínio americano, unipolar. Bem depressa, porém, este se desmantelou. Não resistiu ao espetacular crescimento da China, aos estilhaços da crise financeira mundial e à virada americana com Barack Obama – cujo subproduto imediato era o fim do governo Bush e de sua obcecada guerra ao terror.

É do presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, uma das melhores definições desse furacão: “As placas tectônicas da economia e da política estão se deslocando. As categorias desatualizadas do Primeiro e do Terceiro Mundo, doador e credor, líder e liderado, já não servem mais.”

Buscar vantagens para o Brasil, nesse quintal de incertezas, não é tarefa simples. Primeiro, porque não há mais consenso sobre política externa. Como adverte a professora Maria Hermínia Tavares, do Instituto de Relações Internacionais da USP, o País ficou importante e os temas da diplomacia já não cabem nos salões e saletas do Itamaraty. “Eles ganharam o Congresso, as empresas, a mídia. Tornaram-se um tema controverso”, diz ela.

Polêmica aqui dentro, polêmica lá fora. O mundo dito multipolar onde a política externa tem de se aventurar virou um quebra-cabeça de novos temas, novos fóruns, novos riscos. Dos grandes salões oficiais, como a ONU e a OMC, o debate escapou para o G-20, os BRICs, os BASICs, o Caricom, a Unasul…

Cúpulas informais, às vezes gigantescas, reúnem governos, ONGs e instituições mil para discutir sistema financeiro, segurança nuclear, mudanças climáticas, energias limpas, lavagem de dinheiro, direitos humanos, migrações, controle da internet. Uma tarefa para diplomatas de todos os ministérios.

Que mundo pode sair desse feirão de debates, com seus quilômetros de documentos? Para saber, o Conselho Nacional de Segurança dos EUA reuniu centenas de cientistas e montou, em 2008, uma futurologia de primeira – o estudo Global Trends 2025: A Transformed World (Tendências Globais 2025, Um Mundo Transformado). É um nunca acabar de alertas, a exigir das diplomacias um guia de sobrevivência.

Seu primeiro lembrete é que o Ocidente tem hoje 18% da população mundial – um número que convive com o rápido crescimento da Ásia e do Islã. A riqueza se transfere, em ritmo inédito, para a Ásia.

Daqui a 15 anos cerca de 25 nações saberão fabricar uma bomba nuclear. As alterações climáticas vão desarrumar a vida de muitas nações. É preciso começar já a construir uma economia sem petróleo.

O Brasil, nessa avaliação, vale mais do que antes e menos do que se proclama. Embalado pelo agronegócio e pelo petróleo em alto-mar, pode sonhar com dias gloriosos – mas a precariedade da educação e uma tecnologia de principiante o impedem de decolar.

Discursos e euforia à parte, o que os números dizem é que o País patina no 85º lugar nos índices de educação da ONU e que saltou de 22% para 45% o volume de matérias-primas nas nossas exportações.

Como adverte o economista Marcelo de Paiva Abreu, professor da PUC-Rio, se quiser livrar-se desses grilhões o próximo governo “não pode ignorar a urgência de maciça renovação da infraestrutura e inovações tecnológicas”. Isso combina com a incômoda previsão do Global Trends, segundo o qual o Brasil “tem limitada habilidade para projetar-se além do continente, como player importante no cenário mundial”.

O americano Peter Hakim, do Diálogo Interamericano, vai mais longe. Veterano estudioso da América Latina, ele afirma que o potencial do Brasil para liderar o continente é “limitado por sua falta de disposição para arcar com os custos financeiros e políticos” de tal empreitada. E os vizinhos, diz ele com alguma ironia, “não têm um desejo particular de serem representados pelo Brasil”.

Em meio a tudo isso, a escolha moral e política sobre valores. A busca do “Brasil potência” vale o afastamento das tradicionais alianças ocidentais? Onde fica o ponto ótimo entre direitos humanos e negócios?

Nenhum presidenciável escapará dessas escolhas cruciais, assim que subir a rampa do Planalto. E de muitas outras: como dar alento ao Mercosul? Dá para aplicar um choque de realidade no bolivarianismo? Como retomar o clima de confiança com os EUA? Os BRICs têm futuro como aliança? Seria oportuno o País ousar um pouco mais na política ambiental?

Em busca do norte perdido

As opções do atual governo, principalmente a aproximação com o Irã, esfriaram as relações com os EUA

Paulo Sotero

O vencedor ou vencedora das urnas de outubro herdará, na relação com os Estados Unidos, um ambiente envenenado pelas consequências da trombada entre Brasília e Washington na questão do programa nuclear do Irã e outros desencontros nos últimos dois anos.

O ressentimento deixado pelo episódio iraniano é intenso, mútuo e extravasou para áreas além do controle dos diplomatas, o que deve complicar o indispensável trabalho de reconstrução da confiança entre os dois governos.

Entre altos funcionários e pessoas que acompanham de perto as relações bilaterais fala-se em uma “great anger”, algo entre uma “grande irritação” e “enorme raiva”. “Eu não teria previsto, no início do ano passado, o quadro negativo com que hoje nos deparamos”, disse um funcionário.

No Departamento de Estado, na Casa Branca e em outras áreas do executivo e do Congresso norte-americanos, a interpretação que Brasília deu aos fatos e o vazamento de uma carta que o presidente Barack Obama enviou a seu colega brasileiro foram tomados como “má fé” de um governo que pisou na bola, ignorou o que ouviu de Washington em repetidas consultas, calculou errado a posição de outros países e acabou isolado não apenas de parceiros tradicionais do Brasil, mas também de novos aliados, como China e Rússia.

“A Rússia e a China votaram contra o Irã não porque acreditam nas sanções, mas porque valorizam sua relação com os Estados Unidos e sabiam da importância que a decisão tinha para o presidente Obama”, diz uma alta fonte oficial de Washington.

De acordo com a fonte, o voto do Brasil contra as sanções impediu a Turquia de abster-se, como o governo de Ancara gostaria de ter feito – segundo fontes suas teriam feito saber a Washington -, e agravou o dano causado pelo clima de celebração da assinatura do acordo em Teerã, no dia 17 de maio.

O prejuízo estende-se à mídia, onde Lula começa a ser tratado com hostilidade, e ao Congresso. Para assessores parlamentares, o episódio alienou simpatizantes e gerou uma predisposição hostil ao Brasil que antes não havia e será agora mobilizada pelo influente lobby pró-Israel e por grupos protecionistas contra iniciativas de interesse do País.

O clima ficou tão carregado que recentemente diplomatas americanos acharam necessário mobilizar amigos influentes em Washington para evitar declarações ou gestos que pudessem aumentar o estrago.

O ressentimento é mútuo. Há, no Planalto, forte zanga diante do que foi interpretado como um ato de sabotagem diplomática da secretária de Estado Hillary Clinton ao acordo que Brasil e Turquia negociaram com o Irã.

O sentimento foi expresso pelo próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando recebeu o secretário geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, em maio, dias depois de o Conselho de Segurança da ONU ter apoiado a posição americana e imposto novas sanções econômicas contra Teerã.

Segundo uma testemunha, Lula disse sentir-se “traído” por Obama, a quem julgava estar ajudando ao interceder junto aos iranianos numa missão de alto risco.

Figuras insuspeitas em Washington, como o ex-embaixador Thomas Pickering e o ex-chefe das inspeções da Agência International de Energia Atômica, David Kay, criticaram a pressa da administração Obama em ir adiante com as sanções em vez de tentar usar os esforços do Brasil e da Turquia para buscar uma solução com o Irã.

A disposição dos EUA a um diálogo com o Irã, admitida há dias por Washington, pode aliviar o mal-estar com Brasília e Ancara, mas tem premissa que Teerã quer conversar porque as sanções estão surtindo efeito e é preciso, portanto, manter a pressão.

“A eleição presidencial de outubro abre uma oportunidade natural para se fazer uma reavaliação nos dois países e reconduzir o diálogo a um patamar produtivo”, disse uma alta fonte diplomática.

“Daqui até lá, é importante evitar duas coisas: que se conclua, em Washington, que o Brasil não é um aliado confiável, e, em Brasília, que a diplomacia americana está interessada apenas em afirmar o poder dos Estados Unidos e negar ao Brasil o espaço que o país conquistou na cena internacional.”

No entanto, a retomada do diálogo de alto nível iniciado pelos presidentes FHC e Bill Clinton nos anos 90, que Lula manteve com George W. Bush e ensaiou com Obama, depende agora de fatores imponderáveis.

Em tese, a eleição de José Serra desanuviaria o ambiente mais rapidamente. O candidato tucano condenou publicamente o abraço de Lula ao governo iraniano de Mahmoud Ahmadinejad.

Em caso de vitória de Dilma Rousseff, a dúvida é se ela adotará uma estratégia externa pragmática, que busque fortalecer a agenda econômica e revalorizar as relações com os EUA ou se abraçará a diplomacia ideológica dos últimos dois anos.

A resolução negociada da questão do algodão, depois do episódio iraniano, evitou a imposição de retaliações comerciais aos EUA e mostrou que prevalece em Brasília e Washington o reconhecimento de que há interesses econômicos e uma relação importante a preservar.

Promover a cooperação bilateral com vistas a resultados mutuamente vantajosos foi a ênfase da Cúpula de Altos Executivos de Empresas dos dois países realizada em meados de julho em Denver, Colorado.

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, nome forte para a Fazenda num governo Dilma, enfatizou a importância da cooperação com os EUA do pragmatismo nas decisões econômicas internacionais em encontro que teve na Casa Branca, em conversas reservadas com executivos e acadêmicos e em palestra pública que fez no Wilson Center, durante viagem a Washington, no mês passado.

A falta de traquejo internacional de Dilma alimenta, porém, dúvidas se ela, uma vez no poder, optará por agradar a militância do Partido dos Trabalhadores e abandonará os traços de pragmatismo remanescentes na política externa.

Somem-se a isso as incertezas geradas pela fragilidade da recuperação econômica dos Estados Unidos e pelas crescentes dificuldades políticas do governo Obama. As pesquisas apontam para a derrota do Partido Democrata nas eleições legislativas de novembro e perspectivas incertas de reeleição de Obama em 2012.

A consequência provável é que, nos próximos dois anos, a administração norte-americana estará voltada para dentro. Isso, a má vontade mútua criada pelo episódio iraniano e a possibilidade de nova colisão com Washington a respeito dos Andes desaconselham grandes expectativas nas relações bilaterais.

Os bárbaros estão chegando

Brasil, Rússia, Índia e China, os BRICs, somam 15% do comércio mundial e entram no jogo. Mas já há reações em favor de um sistema mais seguro, que preserve o peso das grandes potências

Andrew Hurrell

O multilateralismo funcionou na maior parte do período pós-1945, porque não era muito multilateral. Centrava-se num grupo central de países desenvolvidos. Excluía o bloco soviético e a ameaça soviética era essencial para sua coesão institucional e para enfrentar o desafio representado pela ascensão econômica do Japão e dos tigres asiáticos.

O Terceiro Mundo tinha um papel marginal. Onde se envolveu, seus interesses eram limitados e predominantemente defensivos (o que se via claramente na participação dos países em desenvolvimento no GATT). Quando ele tentou desafiar a ordem estabelecida, nos anos 70, o desafio foi derrotado.

Tudo isso mudou. O sistema internacional é caracterizado por uma difusão do poder, que inclui potências emergentes e regionais; por uma difusão de preferências com muito mais vozes exigindo serem ouvidas, tanto globalmente quanto internamente, como resultado da globalização e da democratização; e por uma difusão de ideias e valores, com uma retomada das grandes questões da organização social, econômica e política que se supunha já sepultadas com o fim da Guerra Fria e a ascensão do liberalismo.

Há um consenso geral de que os novos poderes regionais e emergentes são atores indispensáveis de qualquer ordem global viável. Mas há pouco acordo quanto à natureza ou aos princípios dessa ordem.

A escala de desafios à governança é gigantesca. Da União Europeia ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear, o multilateralismo e as instituições formais estão em desordem.

E a ascensão de novos poderes traz consigo uma heterogeneidade ainda maior de interesses e valores, assim como fortes demandas por status e reconhecimento – os chamados “positional goods” – a respeito dos quais é praticamente impossível chegar a um acordo estável.

Uma reação já visível é a tentativa de voltar a uma ordem mais centrada nas grandes potências. Segundo essa visão, os Estados Unidos reduziriam o tamanho de suas responsabilidades ao negociar uma nova série de barganhas com as atuais potências emergentes.

Esse pensamento é aparente na interminável retórica das “parcerias” e na maior proeminência de agrupamentos informais como o G-20. As cadeiras ao redor da mesa de negociações seriam rearrumadas e a mesa, ampliada.

A ordem global iria envolver um mosaico de agrupamentos diferentes e muito do que o diplomata Richard Haass, assessor do governo George Bush, chamou de “multilateralismo bagunçado”.

O ministro de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, William Hague, falou recentemente de uma maneira semelhante, enfatizando a importância das relações com as potências emergentes e argumentando que a influência depende de redes de Estados com padrões fluidos de lealdades, alianças e conexões.

Novas entidades como os BRICs, os BASICs e o IBSA pertencem, por igual, a esse cenário. Elas representam tentativas de se organizar para ter mais influência.

Às vezes refletem um desejo de equilíbrio em relação aos Estados Unidos e uma tentativa de deslegitimar as pretensões ocidentais de ditar a ordem global. Às vezes eles são orientados por uma questão mais específica.

Mas eles também se marcam por interesses heterogêneos e muitas vezes conflitantes, e oferecem uma base fraca para um programa de ação.

Apesar de a linguagem das novas parcerias estratégicas estar sempre presente, a realidade e a retórica frequentemente divergem – mesmo no caso muito alardeado da relação Estados Unidos-Índia.

O G-20 é supostamente o principal foro para a cooperação econômica internacional, mas ainda é incerto o que isso inclui – seria um centro de redes técnicas para uma governança da economia global? Um diretório dos principais Estados coordenando e apoiando a ação de instituições formais? Ou uma concertação mais antiquada de potências já estabelecidas e em formação, com eficiência sustentada em hierarquia, exclusão e realização?

É essa incerteza a respeito da função do G-20, e não a questão sobre o melhor tamanho ou abrangência, a maior fragilidade do agrupamento.

Essas incertezas refletem o caráter complexo, híbrido e contestado da sociedade internacional contemporânea – uma sociedade que enfrenta uma série de desafios westfalianos (especialmente relacionados à transição de poder e ao surgimento de novas potências); mas que enfrenta esses desafios em um contexto marcado por fortes características pós-westfalianas (tanto em termos das condições materiais da globalização como da mudança do caráter da legitimidade política).

Seriam mais factíveis os movimentos em direção a uma ordem mais centrada nas potências? Quase certamente, não. As grandes potências de hoje parecem incapazes ou relutantes a desempenhar seus papéis tradicionais nesse tipo de ordem, ajudando a resolver o problema de outros povos e definindo seus interesses de maneira ampla, para ganhar algum apoio dos Estados mais fracos.

Eles também compartilham uma grande relutância a pensar sobre reforma institucional séria e sobre a reconstrução de instituições multilaterais eficientes. Essa não é uma combinação feliz.

Os problemas de legitimidade são particularmente sérios. Os valores que definem direitos humanos e democracia foram manchados pelos excessos da era Bush; os atrativos do “soft power” do capitalismo de livre-mercado foram enfraquecidos pela crise financeira; e as alegações das instituições ocidentais sobre competência técnica e propriedade intelectual foram abaladas.

Por outro lado, as potências emergentes de hoje se sentem tentadas a ver uma política externa escorada em princípios como algo pertencente a uma era de fraqueza (caso do não-alinhamento na Índia); ou a enfatizar, corretamente, a hipocrisia e seletividade que faz parte dos apelos ocidentais a valores globais (como exemplo, se tratando de direitos humanos na Índia e no Brasil).

Mas legitimidade é indispensável – tanto para o poder nacional como para a ordem global. E é especialmente importante para um país como o Brasil, cuja influência não pode depender de força coercitiva. Essa é uma das razões pelas quais o multilateralismo continua indispensável.

Um desafio final está relacionado à política doméstica. Isso emerge automaticamente no caso dos Estados Unidos. Mas, neste ponto crítico, algo semelhante pode ser dito a respeito das potências emergentes, grandes e complexas. As restrições domésticas da Índia à mudança climática são tão complicadas quando as registradas nos EUA. Isso é novo? Em termos gerais, não.

Pensemos nas tensões que foram geradas pela rápida mudança econômica no decorrer da ascensão dos Estados Unidos, da Alemanha e do Japão. Mas o que é novo, ou pelo menos difícil de evitar, é o grau pelo qual a substância das relações entre as potências necessariamente envolve uma gama de questões oriundas da estrutura profunda da sociedade doméstica.

A politização da política externa no Brasil indubitavelmente reflete questões que são particulares ao país – como as mudanças ideológicas dentro da América do Sul. Mas o que vemos no Brasil faz parte de uma tendência mais geral.

Nosso Comentário:

Algumas Perguntas aos Candidatos Sobre a Política Externa do Brasil

Por tudo que vemos nos 3 interessantes textos acima, torna-se fundamental ao país poder conhecer logo a posição dos dois principais candidatos à Presidência em cada um dos temas abordados.

A pergunta básica é: quais serão os caminhos de suas políticas externas visando as próximas décadas e quais benefícios econômicos o Brasil deverá conquistar com eles?

Com certeza, José Serra fará uma mudança radical na política externa brasileira dos últimos oito anos, reestabelecendo as prioridades tradicionais da diplomacia, voltada para os grandes mercados, e relegando o terceiro-mundismo hoje reinante a um patamar intermediário mas, certamente, não de meia volta no que já tiver sido conquistado (como Oriente Médio e África) e dispuser de potencial.

Já Dilma Rousseff deveria ser pragmática e procurar consertar o que considerasse errado e/ou exagerado na política externa de Lula.

Contudo, o fato é que ela estará sempre em vias de cair na dependência de pressões mais extremadas dos partidos que a apóiam. Se ela se mostrar logo centrada no apoio ao bolivarianismo de Chávez e na idolatria a Fidel Castro, isso já será um mal sinal para o futuro do país.

Essa dúvida permanecerá na exata medida em que ela continuar dando ainda mais poder a Marco Aurélio Garcia, que tem lá os seus ideais, mas apropria e submete o país a eles sem qualquer discussão pública a respeito.

Sabe-se que ele é hoje o principal formulador do programa de governo da candidata e tido como a alma de sua possível política externa.

Este assessor especial da Presidência para assuntos internacionais de Lula, junto com o ministro Celso Amorim, tem feito um estranho e irrealista trabalho de já incontáveis erros e com prejuízos irreparáveis à nação, como o distanciamento dos EUA no caso do acordo com o Irã.

Segundo MAG: “estilo à parte, o Brasil alcançou um espaço internacional que é absolutamente compatível com as ideias da Dilma e com sua própria personalidade”. E ele acrescenta: “quem não entra em questões espinhosas não pode ser presidente nem do Corinthians”.

Ele refere-se às entradas de Lula em casos como os de Honduras e do Irã, duas fragorosas derrotas de Lula. Quem perde e não aprende, o que será?

Há quem diga que, passando pelo campo dessas dúvidas, qualquer um desses dois deverá buscar ampliar a presença do Brasil no mundo. Mas o que farão com os Estados Unidos fica ainda sendo a grande pergunta, que mereceria uma resposta por escrito.

De qualquer modo, enquanto Barack Obama e Hillary Clinton continuarem combatendo por poder dentro da mesma trincheira, deverá ser mais seguro ao Brasil permanecer na meia distância atual ou simplesmente mudar o foco da relação para a área econômica, o que seria bem mais proveitoso e inteligente.

Algumas perguntas formuladas aos candidatos com base nos textos acima:

- De que modo eles farão o país tirar vantagem desse novo cenário (de crise financeira com grandes potências reavaliando as regras do jogo e aceitando novos sócios, como os países emergentes)?

- Por quais caminhos eles pretendem definir esse novo lugar do Brasil no mundo?

- Como o Brasil se posicionará e buscará vantagens à medida que as placas tectônicas da economia e da política mundiais forem se deslocando?

- Quais deverão ser suas posições sobre temas como reforma do sistema financeiro internacional, proliferação e segurança nuclear, mudanças climáticas, energias limpas, lavagem de dinheiro, direitos humanos, migrações, e controle da imprensa e da internet?

- Se é fato que daqui a 15 anos cerca de 25 nações saberão fabricar uma bomba nuclear, como deverá ficar o Brasil neste quadro de poder difuso e de ameaças crescentes?

- Como eles irão se precaver e também buscar defender o Brasil com o advento das alterações climáticas que irão desarrumar a vida de muitas nações e tornar muitas delas em grupos desesperados dispostos a tomarem de outros países, mesmo os mais distantes, o que for preciso para garantirem a sobrevivência de seus povos?

- O que eles pretendem fazer para promover as exportações de manufaturados e reverter o delicado quadro atual em que 45% do volume exportado pelo Brasil é de matérias-primas (com baixa ou nenhuma taxação)?

- Como eles pretendem atacar a urgente necessidade de proceder a uma maciça renovação da infraestrutura, qualificação da educação e expansão de inovações tecnológicas do país?

- Como eles farão para o Brasil liderar o continente sul americano e como balancearão direitos humanos com negócios em países como a Venezuela e seu bolivarianismo, sem esquecer da ditadura cubana no Caribe?

- O que eles pretendem fazer com o desalentado Mercosul e a falta de acordos de livre comércio do Brasil?

- Quais serão os caminhos da política ambiental do Brasil em face necessidades mundiais e crescentes ameaças internacionais, como para uma internacionalização da Amazônia Verde e até da Azul (o Pré-Sal)?

- Como eles pretendem investir em Defesa para prevenir e impedir uma tomada simples ou a internacionalização das Amazônias Verde e Azul?

- Como eles pretendem fazer dissipar o ressentimento mútuo e reconstruir a confiança entre os governos do Brasil e dos EUA depois do episódio do acordo com o Irã?

- Quais serão suas políticas externas para a Rússia e a China, nossos aliados no BRIC, que procuraram apoiar as sanções e valorizar suas relações com os EUA?

- Qual será o futuro da Aliança dos BRICs nesse quadro?

- Qual será o futuro da Aliança com a França, que também apoiou as sanções contra o Irã, deixando o Brasil de lado no Conselho de Segurança?

- Eles concordam que a diplomacia americana está interessada apenas em afirmar o poder dos EUA e negar ao Brasil o espaço que o país conquistou na cena internacional?

- Eles vêem alguma razão apara a retomada imediata do diálogo de alto nível entre Brasil e EUA, como buscar reconhecimento pelo espaço que o Brasil vem conquistando na cena internacional e procurar estabelecer pontos comuns?

- Eles concordam em formular uma política externa pragmática, que busque fortalecer a agenda econômica e revalorizar as relações com os EUA e a União Europeia ou preferem apenas manter a diplomacia ideológica dos últimos tempos?

- Como eles vêem os EUA buscando reduzir o tamanho de suas responsabilidades mundiais e negociando uma série de barganhas com os emergentes, como o Brasil?

- Até que ponto o Brasil assumiria algumas dessas responsabilidades dos EUA, onde elas estariam e de que formas deveriam ser?

- Eles concordam que o Brasil está emergindo como futura grande potência e será capaz de desempenhar novos papéis, como ajudar a resolver o problema de outros povos?

- Seguirão eles definindo os interesses do Brasil de forma mais abrangente, como no caso de prestar ajuda e perdoar dívidas em troca de ganhar apoio de Estados mais fracos?

- O que eles pensam sobre a necessidade de uma reforma institucional séria e sobre a reconstrução de instituições multilaterais eficientes?

Roberto Silva

ECONOMIA BR

Os comentários estão liberados. Junte-se ao Clube Defesa BR e apoie a manutenção do Portal Defesa BR. Associe-se você também. Tradução disponível junto ao título de cada post e comentário (translation available). Coloque seu comentário ou pergunta através da página “Contato” encontrada no menu do alto.

Clube Defesa BR: http://www.defesabr.com/clube.htm

Economia BR Site & Blog: http://www.economiabr.com.br

Site Defesa BR: http://www.defesabr.com e http://www.defesabr.com.br

Loja Defesa BR: http://defesabr.com/loja/

Blog Defesa BR: http://defesabr.com/blog

Grupo Defesa BR: http://br.groups.yahoo.com/group/defesabr

TVs Defesa BR: http://www.defesabr.com/TV/tv_defesabr.htm

Twitter Defesa BR: https://twitter.com/defesabr

Twitter Economia BR: https://twitter.com/economiabr

Compartilhe este post com suas redes sociais abaixo:

Facebook Twitter Myspace Friendfeed Technorati del.icio.us Digg Google Yahoo Buzz StumbleUpon

About Roberto Silva