Empreiteiras Brasileiras Em Alto Risco na Venezuela de Chávez

Mídia : Estado de São Paulo

Data : 08/08/2010

Prejuízos à vista na Venezuela

Empresas brasileiras poderão pagar caro por haver acreditado no presidente Hugo Chávez e, mais que isso, por ter levado a sério o entusiasmo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em relação ao companheiro bolivariano, grande arauto do socialismo do século 21.

A Braskem já sabe onde se meteu e retirou 25 das 30 pessoas que mantinha na Venezuela para tocar dois projetos no valor de US$ 3,5 bilhões. O investimento seria realizado em associação com a estatal Pequiven, mas o governo venezuelano descumpriu sua parte, segundo uma fonte conhecedora do assunto, citada por nossa enviada a Caracas, Patricia Campos Mello.

Companhias exportadoras descobriram bem mais cedo o risco enorme dos negócios com o mercado venezuelano. Já ocorreram muitos atrasos de pagamento e o perigo do calote é considerável, porque os importadores dependem de um sistema de câmbio sujeito a controle oficial e a decisões arbitrárias.

Empresas brasileiras ficariam livres do risco de estatização, segundo prometeu o presidente Hugo Chávez a seu amigo Lula. A promessa foi feita logo depois da desapropriação de uma indústria de capital argentino. E foi recebida sem sinal de indignação pela presidente Cristina Kirchner. Ela e seu marido também têm sido aliados muito próximos do chefão bolivariano.

Mas parte do empresariado argentino teve uma reação à altura do ultraje e acusou seu governo de usar a parceria com Chávez para se vingar de desafetos. Agora é a vez de brasileiros perderem o sono por causa da ameaça de desapropriação.

Uma nova lei permitirá ao governo venezuelano confiscar equipamentos e apropriar-se de obras públicas paralisadas ou atrasadas. O projeto foi aprovado pela Assembleia Nacional em primeiro turno e deverá ser aprovado também no segundo, porque o Legislativo é controlado pelo governo.

“Se for aprovada, a lei poderá ser um enorme problema para empreiteiras brasileiras”, disse o diretor da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Venezuela, Fernando Portela. Empreiteiras brasileiras, como Odebrecht, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa, estão envolvidas em grandes empreendimentos na Venezuela e sujeitas, portanto, às variações de humor de um chefão autoritário.

Mesmo agora, a única segurança dessas empresas é a proximidade entre os presidentes Chávez e Lula. Mas o mandachuva bolivariano poderá investir contra empresas brasileiras, a qualquer momento, quando julgar necessário para manter a ascendência sobre uma população cada vez mais sacrificada pela inflação, pela escassez de comida, pelos apagões e por uma prolongada crise econômica.

Neste ano, só dois países da América Latina e do Caribe devem permanecer em recessão. Um deles é o Haiti, muito pobre e ainda sob os efeitos de um devastador terremoto. O outro é a Venezuela, nação rica em petróleo e com grande potencial de desenvolvimento, mas devastada por um governo irresponsável.

No ano passado o PIB venezuelano diminuiu 3,3% e a inflação ficou pouco acima de 25%. Os preços continuam subindo aceleradamente e a economia encolhe. O governo desviou os petrodólares ganhos em tempos de prosperidade para armar o país, transferir renda sem criar empregos produtivos e distribuir favores a aliados estrangeiros.

Nesse jogo, negligenciou a produção de petróleo e destruiu boa parte da economia. Foi preciso aumentar a importação de alimentos, mas nem o produto importado chega aos consumidores. Neste ano, milhares de toneladas de comida – algumas estimativas indicam 130 mil – apodreceram em contêineres.

Enquanto o país afunda, Chávez continua tentando criar inimigos externos. Ao mesmo tempo, recorre a truques macabros, como a exumação e a exibição dos ossos de Simón Bolívar, numa tentativa, talvez, de vincular sua morte – possivelmente por envenenamento – a uma conspiração da oligarquia colombiana do século 19.

Se o país de Chávez se tornar sócio pleno do Mercosul, como deseja o amigão Lula, o chefão bolivariano poderá ampliar o alcance de sua ação desagregadora. Mas alguns empresários brasileiros – poucos, é verdade – também apoiam essa insensatez. Talvez os novos desmandos cometidos na Venezuela possam mostrar-lhes o tamanho desse erro.

Nosso Comentário:

Empreiteiras Brasileiras Em Alto Risco na Venezuela de Chávez

O que será que fez empresários brasileiros experientes, como os responsáveis pelas empreiteiras Odebrecht, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa se deixarem envolver tão facilmente pela conversa de Chávez e o frágil aval de Lula, sem avaliarem o risco que corriam?

Passaram a tocar obras em grandes empreendimentos na Venezuela e agora podem ver confiscados seus maquinários. Talvez pior que isso seja mesmo o perigo de calote, pois a Venezuela é hoje um país em estado falimentar e sem direção alguma, só não vê quem não quer. Enfim, o risco é grande demais para compensar os investimentos.

Esse triste país vive uma grande recessão. A inflação deve ficar em 35% em 2010, que será a mais alta do mundo. O desemprego oficial está em 8,5%, mas é muito maior. O PIB deverá encolher 4,4%, mais que o recuo de 3,3% em 2009.

Pode parecer inacreditável, mas a produção venezuelana de petróleo deverá cair 1%, com todo o potencial que o país tem nessa área. O racionamento de energia deixa milhões de venezuelanos até 6 horas por dia sem luz. Com tudo isso, o problema da segurança pública é endêmico. E por aí vai.

Quanto ao Mercosul, este bloco hoje não é mais importante para o Brasil. Tanto faz se a Venezuela for aceita ou não. A Argentina fez de tudo para impor a nossos exportadores taxas e cotas injustas, enquanto beneficiavam os chineses, declaradamente. Portanto, não existem mais interesses em comum e muito menos uma visão compartilhada.

O empresariado brasileiro já não tem tanta vontade de pertencer ao Mercosul porque o Brasil é agora um jogador global e precisa ter liberdade para negociar tratados de livre comércio e ganhar o mundo sozinho.

Só para comparar, o México pertence ao NAFTA e tem conseguido firmar sozinho dezenas de acordos de livre comércio pelo mundo inteiro, sem qualquer limitação ou barreira de seus sócios locais, EUA e Canadá.

Outro dia, o Mercosul firmou um tratado com o Egito, e olhe lá. Mas onde está o tratado de livre comércio com a União Europeia, que vem sendo negociado desde 1995 (isso lembra o processo FX da FAB)?

São 15 anos sem resultados concretos esse Mercosul. Está mais que na hora do Brasil mudar o jogo ou, pelo menos, jogar com independência.

Venezuela – 18/05/2010:

Argentina transfere presidência ao Brasil durante a Cúpula do Mercosul – 04/08/2010:

Roberto Silva

ECONOMIA BR

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